A Vesper, venture builder de Florianópolis, já desenvolveu oito deep techs e captou mais de R$ 220 milhões em rodadas de investimento.

Da programação de células à soberania nacional: a tese da Vesper para a biotecnologia brasileira

Venture builder nacional já desenvolveu oito deep techs e captou mais de R$ 220 milhões em rodadas de investimento. Em entrevista à rede The Builders, Gabriel Bottós defende a biotecnologia como infraestrutura estratégica para o país. / Fotos: Divulgação

Durante dois dias, cientistas, empreendedores e investidores discutiram, em Florianópolis, como transformar conhecimento científico em empresas capazes de competir globalmente. Promovido nos dias 25 e 26 de maio pela Vesper Biotechnologies, o Annual Meeting 2026 reuniu cerca de 150 participantes para debates sobre saúde humana, agrobiotecnologia e o papel estratégico da ciência na economia brasileira.

Fundada em 2018, a companhia atua na criação e no desenvolvimento de deep techs voltadas a áreas como terapias avançadas, diagnósticos, edição genômica e agricultura sustentável. Em Florianópolis, a Vesper concentra laboratórios, pesquisadores e investidores em uma operação que reúne mais de 100 profissionais, incluindo 75 doutores, e está ligada ao desenvolvimento de 17 patentes internacionais.

O modelo parte de um desafio recorrente no Brasil: aproximar pesquisa científica, capital e capacidade empresarial. A Vesper identifica tecnologias promissoras, participa da formação dos negócios e oferece estrutura laboratorial, estratégia de propriedade intelectual, gestão e acesso a investidores. A operação já mobilizou mais de R$ 220 milhões entre investimentos privados e recursos públicos de fomento à inovação. 

Para Gabriel Bottós, cofundador e CEO da Vesper, enquanto boa parte do setor de tecnologia trabalha com programação de computadores, suas empresas atuam na “programação de células”. A partir de tecnologias como RNA, edição genômica e microbiômica, os pesquisadores buscam desenvolver tratamentos, diagnósticos e soluções capazes de aumentar a produtividade no campo e reduzir a dependência de insumos importados.

Em entrevista para a rede The Builders, Bottós afirma que a biotecnologia deve ser tratada como infraestrutura estratégica: o domínio dessas tecnologias influencia a capacidade de um país produzir medicamentos, proteger cadeias produtivas e transformar conhecimento acadêmico em propriedade intelectual e empresas globais.

The Builders — O encontro da Vesper dedicou o primeiro dia à saúde humana e o segundo à agrobiotecnologia. São campos distintos, mas conectados por uma mesma base científica. Como essa relação aparece?

Gabriel Bottós — A primeira mensagem é que a biotecnologia avançada é transversal a diferentes áreas, como agricultura e saúde humana. São aplicações distintas de uma mesma base tecnológica.

No centro do que fazemos estão tecnologias relacionadas ao RNA, molécula que carrega informações dentro das células. Quando você consegue compreender e editar esse código da vida, pode aplicar esse conhecimento em plantas, fungos, bactérias ou seres humanos.

O core tecnológico da Vesper é muito semelhante nos diferentes projetos. O que muda é a aplicação. Enquanto boa parte do setor de tecnologia trabalha com programação de computadores, nós trabalhamos com programação de células. Podemos utilizar essas tecnologias para revolucionar a agricultura ou enfrentar desafios da medicina que ainda não possuem respostas satisfatórias, como determinados tipos de câncer e doenças autoimunes.

Cientistas, empreendedores e investidores discutiram como transformar conhecimento em empresas capazes de competir globalmente.

The Builders — Em diferentes momentos do encontro, você tratou a biotecnologia como uma questão de soberania nacional. Por que esse domínio tecnológico se tornou tão estratégico?

Gabriel Bottós — A biotecnologia não deve ser vista somente como um setor econômico. Ela é uma infraestrutura estratégica e uma questão geopolítica. Na saúde, o Brasil possui condições muito relevantes para a realização de estudos clínicos. Temos uma população numerosa e miscigenada, com diversidade genética, além de instituições qualificadas. Para uma grande empresa farmacêutica internacional que precisa decidir onde conduzir um estudo, especialmente em doenças raras, o Brasil pode ser um destino importante.

Isso abre uma oportunidade para atrair investimentos, desenvolver competências e fortalecer capacidades que já vêm sendo construídas por grandes instituições de pesquisa. Mas precisamos avançar. Durante muito tempo, desenvolvemos capacidade de reproduzir tecnologias criadas no exterior, como ocorreu com medicamentos genéricos após a expiração de patentes. Agora, podemos transitar para um modelo de inovação global, utilizando o conhecimento acumulado para criar tecnologias inéditas.

Na agricultura, a discussão também é estratégica. O futuro do agro passa pela edição genômica e pela microbiômica. Dominar essas tecnologias significa reduzir a dependência de insumos importados, aumentar a produtividade e proteger uma cadeia produtiva essencial para o país.

The Builders — O Brasil ainda encontra dificuldades para transformar pesquisa científica em empresas e produtos globais. O que falta para reduzir essa distância?

Gabriel Bottós — Precisamos dominar competências, incentivar o empreendedorismo científico e voltar a valorizar a academia. Existe hoje uma tendência preocupante de abandono da carreira acadêmica. Muitos talentos deixam o país porque não encontram oportunidades para desenvolver pesquisas de ponta e transformar conhecimento em impacto concreto.

Na Vesper, estamos investindo em ciência e contribuindo para repatriar pesquisadores. A ideia não é afirmar que uma única empresa resolverá todos os desafios. O que estamos construindo é uma prova de conceito: demonstrar que é possível desenvolver ciência avançada no Brasil, gerar propriedade intelectual, criar empresas e, ao mesmo tempo, entregar retorno financeiro e impacto para a sociedade.

Essa experiência pode funcionar como uma célula capaz de multiplicar conhecimento, patentes e novas tecnologias. Mas a inovação não acontece de forma isolada. Ela se parece com uma corrente elétrica: precisa de conexões. Também é uma corrida de bastão. Uma instituição desenvolve determinada etapa, passa adiante e permite que outro ator avance.

“Queremos demonstrar a investidores, pesquisadores e instituições que é possível desenvolver uma nova matriz econômica baseada em ciência, tecnologia e propriedade intelectual no país”

Um dos objetivos do Annual Meeting foi exatamente este: reunir pesquisadores, investidores, empreendedores e instituições para aproximar os diferentes elos dessa cadeia. Tivemos participantes do Brasil, da Europa e de Boston. Conseguimos reunir, em dois dias, um grupo de altíssimo nível.

The Builders — A Vesper anunciou recentemente uma nova rodada de investimento. Como os investidores estão avaliando o potencial dessas empresas e quais são os próximos passos?

Gabriel Bottós — A relação com investidores não se constrói de um dia para o outro. As pessoas que estão próximas da Vesper compreendem o investimento de risco não somente como uma possibilidade de retorno exponencial, mas também como uma ferramenta de transformação.

O nosso principal argumento é a entrega. Ao longo dos últimos anos, mostramos resultados consistentes e demonstramos que aquilo que apresentávamos inicialmente como uma visão começou a se transformar em realidade.

O próximo passo é atrair novos investimentos no Brasil e ampliar as conexões internacionais. A biotecnologia já nasce global. Ela não respeita fronteiras. Uma doença enfrentada aqui também existe em outros países. Estamos trabalhando com desafios locais e globais.

Nos próximos cinco anos, esperamos levar pelo menos três medicamentos à fase clínica, com testes em pacientes para avaliar eficácia e segurança. Também pretendemos colocar no mercado entre cinco e sete novos diagnósticos inovadores e avançar com pelo menos dez produtos em estudos de campo na agricultura.

A ambição é criar um grande case de biotecnologia avançada no Brasil, com potencial para alcançar uma avaliação de alguns bilhões de dólares. Mas o impacto vai além da criação de uma empresa. Queremos demonstrar a investidores, pesquisadores e instituições que é possível desenvolver uma nova matriz econômica baseada em ciência, tecnologia e propriedade intelectual no país.

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