A virada da Olist: como a IA entrou na operação e ajudou a empresa a voltar a crescer
Cinco anos após rever o modelo que criou um dos unicórnios de Curitiba, empresa cresce 65% e aposta em agentes de lA para ampliar a operação sem repetir as estruturas do passado, comenta o CEO Tiago Dalvi (foto).
Durante mais de uma década, a história da Olist esteve associada a uma ideia relativamente simples: ajudar pequenos lojistas a vender dentro dos grandes marketplaces. Foi esse modelo que colocou a empresa de Curitiba entre os principais nomes do comércio eletrônico brasileiro, atraiu investidores e financiou sua expansão até chegar ao status (ainda raro no Brasil) de ser um dos unicórnios do ecossistema tech.
Mas o produto que abriu esse caminho já não existe.
A descontinuidade da Loja Olist, anunciada 11 anos depois da fundação da companhia, é o sinal mais visível de uma transformação iniciada há cerca de cinco anos. Nesse período, a empresa deixou de se organizar em torno da intermediação de vendas e passou a construir uma plataforma que reúne gestão, comércio eletrônico, pagamentos, crédito e logística para pequenas e médias empresas.
A inteligência artificial entrou depois, mas acabou se tornando a peça que conecta essa nova estrutura. Com a tecnologia incorporada ao produto e à operação interna, a Olist cresceu 65% na comparação anual, seu maior avanço dos últimos cinco anos.
“A inteligência artificial deixou de ser uma camada de apoio e passou a ser parte da infraestrutura do negócio”, afirma o fundador e CEO, Tiago Dalvi. “Nosso objetivo é fazer com que pequenas e médias empresas tenham acesso a capacidades que, até pouco tempo atrás, estavam restritas a grandes companhias, com times técnicos robustos e investimentos muito altos em tecnologia.”
Hoje, mais de 50% dos cerca de 60 mil clientes da companhia já utilizam algum recurso de IA dentro da plataforma. Aproximadamente 31% recorrem às ferramentas com frequência.
Uma empresa diferente daquela que nasceu
Nos últimos anos, a Olist investiu mais de R$ 100 milhões em novos produtos, lançou uma operação logística, adquiriu a fintech Flip e ampliou sua oferta financeira. O ERP passou a funcionar como porta de entrada para uma plataforma que acompanha estoque, pedidos, vendas, pagamentos e entregas. A aposta é reduzir uma fragmentação comum entre pequenos negócios, que distribuem gestão, pagamentos, logística, atendimento e comércio eletrônico entre diferentes fornecedores. Na prática, o empreendedor passa parte do tempo conciliando informações e repetindo tarefas.
“O empreendedor quer resolver sua dor de vender e rentabilizar o negócio, mas mais de 30% do tempo dele e de sua equipe é gasto com atividades manuais”, diz Dalvi.
Nos últimos 12 meses, a companhia avançou no uso de agentes em áreas como suporte, vendas, marketing, logística, finanças e análise de dados. Hoje, mais de 30 deles participam de cerca de 210 mil ações mensais. Outras 75 mil automações são realizadas dentro da plataforma. Segundo a empresa, atividades como análises de dados e alterações em lote tiveram redução de até 90% no tempo de execução.

O fim do produto que criou a empresa
A decisão mais simbólica da virada foi encerrar a Loja Olist, produto sobre o qual a companhia construiu sua primeira década. A solução ajudava pequenos lojistas a vender dentro de marketplaces e aproximou a empresa dos problemas que mais tarde orientariam sua expansão. Mas representava uma Olist organizada em torno de uma função específica. A nova estratégia busca uma posição mais profunda na rotina dos clientes: participar da gestão do estoque, do caixa, das vendas, das entregas e do crédito.
“A Loja Olist foi fundamental para a construção da companhia”, afirma Dalvi. “Mas o mercado mudou, as dores dos clientes ficaram mais complexas e entendemos que poderíamos gerar muito mais valor ao integrar tecnologia, dados, automação, logística, gestão e IA.”
A transformação também chegou à estrutura interna. A Olist reduziu camadas de gestão, reorganizou equipes e treinou funcionários para trabalhar com ferramentas de inteligência artificial. A mesma infraestrutura oferecida aos clientes passou a apoiar atendimento, vendas, análises e processos administrativos. “Não existe uma empresa verdadeiramente AI First se a inteligência artificial não estiver conectada a todas as esferas e à raiz do negócio”, afirma. “Ela precisa transitar da operação à estratégia, do atendimento ao produto, da análise de dados à execução.”
O crescimento de 65% indica que a mudança começou a produzir resultados. O próximo teste será transformar automações pontuais em ganhos recorrentes de produtividade, receita e retenção.
“O pequeno empreendedor não precisa se tornar especialista em IA”, diz Dalvi. “Ele precisa de soluções que resolvam problemas reais, automatizem tarefas, antecipem gargalos e liberem tempo para que possa focar no que importa em sua empresa.”
