Inovação urbana: “Cidades precisam devolver tempo às pessoas”, diz Carlos Moreno
Em entrevista à rede The Builders, criador do conceito de Cidade de 15 Minutos defende políticas de longo prazo para enfrentar desigualdade, mudanças climáticas e perda de qualidade de vida. / Foto: The Builders
As cidades do futuro serão, em grande parte, aquelas que já existem. O desafio, portanto, não está apenas em criar novos territórios urbanos, mas em reorganizar os atuais para reduzir deslocamentos obrigatórios, aproximar serviços e devolver tempo útil às pessoas. A avaliação é de Carlos Moreno, pesquisador franco-colombiano que se tornou uma das principais referências internacionais no debate sobre proximidade urbana.
Professor associado do IAE Paris–Sorbonne e diretor científico da cátedra Empreendedorismo, Território e Inovação, Moreno ficou mundialmente conhecido por formular, em 2016, o conceito de Cidade de 15 Minutos, que também virou livro. A proposta foi posteriormente incorporada à estratégia urbana da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, de quem ele também se tornou assessor científico.
Em entrevista a The Builders durante o Summit Cidades, realizado de 23 a 25 de junho, em Florianópolis, Moreno afirmou que o número de minutos é menos importante do que a lógica por trás do conceito. Dependendo das características do território, essa organização pode ocorrer em dez, 15 ou 30 minutos, por meio de bairros mais completos, microcentros ou redes conectadas de cidades.
A ideia busca aproximar moradia, trabalho, educação, saúde, comércio, cultura e lazer. Segundo Moreno, quanto mais tempo uma pessoa precisa gastar para acessar atividades básicas, menor tende a ser sua qualidade de vida urbana. “Precisamos regenerar nossos territórios para encontrar um novo equilíbrio entre as grandes cidades, que asfixiam a qualidade de vida, e outros lugares que podem ser revitalizados”, afirmou a The Builders.
Da distância ao tempo útil
Moreno argumenta que o século XX foi marcado pela tentativa de vencer distâncias com grandes vias, automóveis e infraestruturas de transporte. No século XXI, o desafio passa a ser recuperar o tempo consumido pelos deslocamentos — uma questão especialmente crítica na América Latina, onde o crescimento acelerado produziu metrópoles extensas, desiguais e dependentes do carro.
Em Bogotá, na Colômbia, uma pessoa pode passar o equivalente a cerca de 15 dias por ano presa no trânsito. Esse modelo produz o que o pesquisador chama de injustiça temporal: parte da população precisa consumir horas do dia para chegar ao trabalho, à escola, aos serviços de saúde e a outros equipamentos urbanos.
Para Moreno, avaliar a qualidade de vida urbana exige olhar além do crescimento econômico. “A felicidade é um sentimento. O bem-estar pode ser medido”, afirmou. Essa avaliação deve considerar três dimensões: “o bem-estar pessoal e familiar; o bem-estar social, com vizinhos e colegas de trabalho; e o bem-estar ecológico, relacionado à pegada de carbono, à biodiversidade e à maneira como compartilhamos o território”.
Nesse processo, a tecnologia deve funcionar como instrumento, e não como finalidade. Dados e ferramentas digitais podem ajudar a identificar desigualdades de acesso, orientar decisões e medir os efeitos das políticas urbanas sobre a vida cotidiana.
Proximidade sem expulsão
A reorganização dos bairros, no entanto, também envolve riscos. A ampliação da oferta de serviços, infraestrutura e espaços públicos tende a aumentar a atratividade e o valor dos imóveis. Sem políticas habitacionais, a regeneração pode expulsar economicamente justamente os moradores que deveria beneficiar. “O principal problema da gentrificação é o custo da moradia. Quando os serviços melhoram e a qualidade de vida aumenta, o preço dos imóveis também sobe”, explicou Moreno.
Para ele, a habitação não pode ser tratada apenas como um ativo financeiro: precisa ser preservada como lugar de vida. Uma das alternativas é separar o valor do terreno do preço da construção. Nesse modelo, o morador adquire o imóvel, mas não a terra, reduzindo o custo de acesso em troca de restrições à revenda por um período de 15 ou 20 anos.
O mecanismo é uma entre diferentes possibilidades para conciliar melhoria urbana e permanência da população.
Decisões para as cidades que já existem
Para Moreno, o desafio não está em imaginar cidades inteiramente novas, mas em transformar os territórios já construídos.
A mudança, porém, exige um horizonte mais longo do que o dos mandatos políticos. “Não pode ser um programa de eleições para quatro anos. É uma estratégia de 20 anos”, afirmou. Na avaliação do pesquisador, governos nacionais, regionais e locais precisam combinar visão, perseverança e capacidade de manter políticas urbanas ao longo do tempo.
“As cidades do amanhã são as cidades de hoje”, resumiu.
A entrevista com Carlos Moreno antecipa um dos debates que estarão no centro da revista especial The Builders sobre cidades inteligentes, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2026.
A publicação reunirá entrevistas, tendências e casos sobre inovação urbana, mobilidade, clima, tecnologia e qualidade de vida nas cidades.
