A tragédia das cidades não é a falta de talentos. É o desperdício do potencial criativo de pessoas comuns
Uma cidade que deseja prosperar nas próximas décadas precisa deixar de perguntar apenas como atrair investimentos e começar a perguntar como incentivar a criatividade colaborativa dos seus habitantes. / lmagem: ChatGPT/TBD PR

Por Lucas Foster, presidente da Organização Mundial da Criatividade e morador de Maringá (PR)
Ao longo da história, as cidades foram construídas a partir dos recursos que tinham à disposição.
Algumas floresceram pelas terras férteis. Outras, por suas minas, portos e riquezas naturais. Houve aquelas impulsionadas pelas ferrovias, pelas fábricas ou pelos grandes ciclos econômicos. Cada época teve sua matéria-prima estratégica.
Mas o nosso século apresenta uma nova realidade: o recurso mais valioso para o desenvolvimento de uma cidade está dentro das pessoas. Seu nome é criatividade.
Maringá (PR), por exemplo, nasceu do encontro entre visão e coragem. Quando Jorge de Macedo Vieira desenhou uma cidade-jardim no interior do Paraná, ele não estava apenas projetando ruas, praças e avenidas. Estava imaginando um futuro que ainda não existia. A própria origem da cidade Maringá foi um ato criativo.
Hoje, diante dos desafios ambientais, tecnológicos e sociais que definirão as próximas décadas, talvez seja hora de fazermos uma pergunta fundamental: qual será a matéria-prima capaz de construir a Maringá de 2050?
A resposta pode parecer simples, mas é profundamente transformadora: líderes e cidadãos criativos.
Sir Ken Robinson, educador britânico que revolucionou o debate sobre educação no mundo, afirmava que “a criatividade é tão importante na educação quanto a alfabetização”. Para ele, não nascemos divididos entre criativos e não criativos. Todos carregamos a capacidade de imaginar, experimentar e criar. O problema é que muitos sistemas educacionais, sociais e organizacionais acabam ensinando as pessoas a abandonar essa capacidade.
A tragédia das cidades não é a falta de talentos. É o desperdício silencioso do potencial criativo de milhões de pessoas comuns.
Uma cidade que deseja prosperar nas próximas décadas precisa deixar de perguntar apenas como atrair investimentos e começar a perguntar como incentivar a criatividade colaborativa dos seus habitantes.
É nesse ponto que as ideias de Charles Landry ganham relevância. Criador do conceito de Cidade Criativa, Landry propõe que o maior diferencial competitivo das cidades contemporâneas não está em incentivos fiscais ou em grandes obras isoladas, mas na capacidade de mobilizar redes de criatividade para resolver problemas e gerar oportunidades.
Uma cidade criativa não é uma cidade cheia de artistas. É uma cidade capaz de reinventar-se a partir de suas comunidades.
É uma cidade que transforma desafios em inovação. Que aproxima universidade e mercado. Que valoriza arte e cultura como infraestrutura invisível. Que cria espaços de encontro onde pessoas diferentes possam trocar ideias. Que entende que diversidade e intergeracionalidade não é obstáculo ao desenvolvimento, mas condição para que ele aconteça.
Nesse sentido, a criatividade deixa de ser atributo individual para tornar-se estratégia urbana.
Maringá possui ativos raros para realizar esse salto. Tem tradição de planejamento. Possui uma forte rede educacional. Conta com uma sociedade civil organizada e uma reconhecida qualidade de vida. Ao longo de sua história, demonstrou capacidade de cooperação entre diferentes setores.
Mas nenhuma dessas vantagens é permanente.
Aprender, adaptar e reimaginar caminhos
O futuro não recompensa cidades que apenas preservam seus sucessos passados. Recompensa aquelas capazes de aprender, adaptar-se e imaginar novos caminhos.
Sir Norman Foster, um dos maiores arquitetos do nosso tempo, costuma lembrar que a arquitetura é uma expressão de valores. O mesmo vale para as cidades. As cidades revelam aquilo que escolhem valorizar.
Se valorizam apenas velocidade e crescimento econômico, produzem expansão desordenada e fragmentação social. Se valorizam apenas eficiência, podem perder diversidade e vitalidade. Mas, quando escolhem colocar as pessoas no centro do desenvolvimento, criam ambientes capazes de gerar prosperidade duradoura aliada à inovação.
A Maringá dos nossos filhos não será definida apenas pelos edifícios que construiremos.
Ela será definida pelas perguntas que teremos coragem de fazer.
Estaremos formando jovens preparados para repetir respostas ou para criar soluções inéditas?
Nossos bairros favorecerão encontros, trocas e colaboração?
Nossas escolas estimularão curiosidade ou conformismo?
Nossas empresas premiarão obediência ou inovação?
Nossos espaços públicos convidarão à convivência e à imaginação?
O futuro desejável não nasce por acaso. Ele é projetado. E toda projeção exige criatividade.
Talvez o maior legado que possamos deixar às próximas gerações seja justamente este: uma cidade que acredita no potencial criativo como seu principal patrimônio. Uma cidade que compreende que parques, avenidas e edifícios importam, mas que reconhece que sua verdadeira riqueza está nas ideias que circulam entre as pessoas.
Porque cidades podem copiar tecnologias. Podem importar modelos urbanísticos. Podem replicar políticas públicas.
Mas nenhuma cidade consegue prosperar por muito tempo sem cultivar aquilo que a torna singular: a capacidade criativa de seus cidadãos.
No fim das contas, o futuro de Maringá não será construído apenas com concreto, aço ou algoritmos. Será construído com imaginação.
E imaginação, quando encontra propósito coletivo, transforma-se na mais poderosa infraestrutura para o desenvolvimento sustentável.
A matéria-prima do futuro já está entre nós. Precisamos apenas aprender a cultivá-la.
