A corrida da IA redesenha o mapa da inovação — e abre uma janela para o Paraná
Dados apresentados durante o ConectaPR mostram que novos polos avançam ao investir em infraestrutura e talentos, enquanto Curitiba cresce na América Latina mas ainda esbarra no acesso a capital. / Fotos: The Builders PR
Durante boa parte das últimas décadas, o avanço da economia digital alimentou a ideia de que a localização perderia importância para empresas de tecnologia. Em tese, uma startup poderia nascer distante dos grandes centros, acessar clientes globais e crescer sem depender do território ao redor.
Mas a corrida da inteligência artificial recolocou a geografia no centro da disputa.
Capacidade computacional, universidades, profissionais especializados, capital e proximidade com grandes empresas voltaram a influenciar diretamente os lugares onde novos negócios são criados, financiados e escalados. Nesse novo ciclo, regiões que não lideravam os rankings globais passaram a ganhar espaço ao organizar rapidamente esses ativos — enquanto ecossistemas consolidados perderam velocidade.
Esse foi um dos debates que atravessaram o ConectaPR, realizado nos dias 24 e 25 de julho, no Sebrae/PR, em Curitiba. O encontro reuniu cerca de 1,5 mil participantes – dos quais cerca de 30% vindos do interior do estado – em uma programação que combinou palestras, painéis e atividades de capacitação com uma feira de negócios formada por startups, empresas, universidades, entidades e representantes de diferentes territórios.
A nova hierarquia dos ecossistemas
“Estar na região certa e no momento certo faz toda a diferença para uma empresa”, afirmou Naira Bonifácio, diretora para a América Latina da Startup Genome, que mostrou como a inteligência artificial está alterando os critérios usados por investidores para avaliar empresas e regiões.
Segundo o Startup Genome, que desenvolve um principais rankings globais sobre ecossistemas de inovação, 40% do capital de risco global já está direcionado à IA. A concentração permanece elevada: 65% dos investimentos em empresas nativas de inteligência artificial seguem para o Vale do Silício. Pequim responde por aproximadamente 10%, e Paris, por 4%.

O movimento mais relevante para ecossistemas regionais, no entanto, está fora do topo tradicional. Cidades como Filadélfia, Paris e Helsinque avançaram rapidamente na economia da IA a partir de investimentos em infraestrutura, formação de profissionais e atração de empresas, mesmo sem ocuparem historicamente as primeiras posições entre os maiores polos globais de startups. Na direção contrária, ecossistemas mais estabelecidos, como Londres, Toronto e Montreal, perderam terreno por não acompanharem a mesma velocidade.
Nesse cenário de mudanças rápidas, Curitiba aparece entre os cinco ecossistemas de startups que mais avançaram na América Latina, segundo os dados apresentados pela Startup Genome. O avanço, porém, convive com uma fragilidade: a baixa disponibilidade de capital para startups que precisam acelerar produtos, ampliar mercado e ganhar escala. Na economia da IA, esse gargalo tende a pesar ainda mais, diante dos investimentos exigidos em profissionais especializados, tecnologia e capacidade computacional.
Uma fronteira que pode virar mercado
A presença de delegações estrangeiras no ConectaPR acrescentou uma dimensão regional a essa discussão. Pela segunda vez, o evento recebeu um grupo de Misiones, na Argentina, formado por 20 empresários. O Paraguai participou pela primeira vez, representado por integrantes da Câmara Paraguaia da Indústria de Software.
A aproximação reforça uma possibilidade estratégica para o Paraná: transformar a proximidade com Argentina e Paraguai em acesso a mercados, circulação de conhecimento e desenvolvimento conjunto de negócios.
“O mais importante para nós é aprender. O Paraguai é como um irmão menor do Brasil. Aprendemos muito com a experiência desse grande mercado brasileiro”, afirmou Andrea Vronik, diretora de Inovação da entidade. Para ela, a velocidade das transformações tecnológicas torna a articulação entre os países ainda mais necessária. “Essa integração é muito importante para nós, ainda mais com a inteligência artificial, porque tudo muda todos os dias.”

“O nível da conversa subiu”
“Hoje não tem como montar um novo negócio, propor uma solução ou um produto sem pensar no que pode ser potencializado pela inteligência artificial”, comenta Alan Alex Debus, coordenador estadual de inovação do Sebrae/PR, em conversa com The Builders Paraná, durante o evento.
Para ele, a IA já precisa entrar na origem dos novos negócios, e não apenas ser adicionada mais tarde como ferramenta de produtividade. Essa mudança eleva também a exigência sobre o ecossistema: empreendedores mais preparados chegam com demandas mais objetivas por mercado, capital, parcerias e caminhos de crescimento.
“A cada ano, o preparo do empreendedor, aquela vontade e aquela resiliência estão mais evidentes. A gente percebe que o nível da conversa subiu”, diz. “Isso nos força, como ecossistema, a apresentar soluções mais adequadas e melhores a cada ano.”
