A futurista Amy Webb - que todos os anos lançava o influente Tech Trends no evento de Austin - ‘mata’ o projeto e afirma que o futuro não será definido por tecnologias isoladas, mas pela combinação entre elas.

SXSW 2026: o fim dos relatórios de tendências? A aposta agora é na era das convergências

A futurista Amy Webb – que todos os anos lançava o influente Tech Trends no evento de Austin – ‘mata’ o projeto e afirma que o futuro não será definido por tecnologias isoladas, mas pela combinação entre elas.

Um dos rituais mais tradicionais do South by Southwest (SXSW) aconteceu de forma inesperada em 2026. A futurista Amy Webb, CEO da Future Today Strategy Group, pediu que a plateia vestisse preto para assistir ao “funeral” do seu próprio relatório anual de tendências tecnológicas — um documento que durante quase duas décadas se tornou referência global para empresas, investidores e governos.

Realizado todos os anos em Austin, no Texas, o SXSW é um dos principais encontros mundiais sobre tecnologia, inovação, cultura e negócios. A edição de 2026, que encerra na quarta (18.03) reúne mais de 850 sessões, cerca de 600 mentorias e milhares de participantes de todo o mundo, mantendo o festival como um dos maiores pontos de encontro entre tecnologia, cinema, música e empreendedorismo. 

A provocação não foi apenas teatral. Para Webb, o modelo clássico de relatórios de tendências (longos PDFs que listam sinais de futuro) já não acompanha a velocidade das transformações tecnológicas. Em um mundo em que a inovação se acelera de forma exponencial, esses documentos se tornam obsoletos quase imediatamente. No lugar disso, ela propõe olhar para um conceito mais amplo: as convergências tecnológicas.

No lugar disso, ela propõe olhar para um conceito mais amplo: as convergências tecnológicas. Segundo Webb, a pergunta relevante deixou de ser “qual tecnologia vai dominar o futuro?” para se tornar “o que acontece quando várias tecnologias passam a interagir ao mesmo tempo?”.

Essa visão apareceu em vários momentos do festival. Em outra sessão bastante concorrida, o professor Scott Galloway, da Stern School of Business da Universidade de Nova York, argumentou que transformações aparentemente desconectadas — da inteligência artificial à geopolítica do petróleo — fazem parte de um mesmo sistema de forças que se retroalimentam.

Na sua leitura, conflitos geopolíticos, mudanças demográficas, inovação tecnológica e mercados financeiros estão cada vez mais entrelaçados — um raciocínio que dialoga diretamente com a ideia de convergência apresentada por Webb.

O mundo das convergências

Na visão apresentada no SXSW, o momento atual se parece menos com uma sucessão de ondas tecnológicas e mais com um processo de colisão entre diferentes sistemas. E esse fenômeno cria um tipo diferente de transformação econômica e social. A IA, por exemplo, não é apenas um novo software – ela se integra a robôs físicos, dispositivos biomédicos, infraestruturas de dados e plataformas digitais, criando sistemas híbridos que reconfiguram setores inteiros da economia.

É essa lógica de convergência que ajuda a explicar mudanças que já começam a aparecer em várias frentes: desde máquinas capazes de executar trabalho contínuo sem pausa até tecnologias que ampliam capacidades humanas — do sono à cognição — e sistemas de IA que passam a mediar relações sociais e emocionais.

Para Amy Webb, estamos entrando em um período que lembra momentos históricos de ruptura, como a Revolução Industrial ou o surgimento da internet.

Ela usa o conceito de “destruição criativa”, do economista Joseph Schumpeter, para explicar o processo atual: sistemas antigos começam a colapsar ao mesmo tempo em que novos modelos econômicos surgem rapidamente. Em vez de perguntar qual tecnologia “vai vencer”, líderes deveriam refletir sobre três questões: quais sistemas estão convergindo, quais novas estruturas de poder estão surgindo e quais decisões precisam ser tomadas agora.

Tecnologia e solidão

Se a tecnologia apareceu no SXSW como motor de transformação econômica, ela também foi discutida sob outra perspectiva: seu impacto nas relações humanas.

A especialista em saúde social Kasley Killam chamou atenção para um paradoxo crescente. Nos Estados Unidos, cerca de 16% da população afirma se sentir isolada ou solitária na maior parte do tempo, enquanto buscas no Google por “como fazer amigos” atingem níveis recordes. Não à toa, tendências apontam que a próxima fase da economia do bem-estar pode estar justamente em experiências e serviços voltados à conexão humana.

Durante sua apresentação, Killam destacou quatro áreas fundamentais para fortalecer a chamada saúde social: escolas, ambiente de trabalho, tecnologia e iniciativas locais. Para ela, habilidades de conexão deveriam ser ensinadas desde cedo, da mesma forma que atividades físicas. No ambiente de trabalho, pesquisas mostram que funcionários que se sentem conectados aos colegas podem ser até sete vezes mais engajados.

Já a tecnologia aparece como um território ambíguo:  “Se ela ajuda a fortalecer relações humanas, isso é positivo. Mas se começa a substituí-las, temos um problema”, afirmou, ao comentar o crescimento do uso de chatbots como companhia.

Entre as soluções mais eficazes, segundo ela, estão iniciativas muitas vezes menos visíveis que a tecnologia: grupos de bairro, clubes e organizações comunitárias capazes de reconstruir conexões presenciais.

Se há um fio condutor no SXSW deste ano, ele parece ser a incerteza.

Discussões sobre inteligência artificial, geopolítica, cultura digital e saúde mental apareceram lado a lado na programação — reflexo de um mundo em que tecnologia, economia e sociedade se tornaram inseparáveis.

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