Primeira pesquisa estadual de percepção pública de CT&I revela interesse elevado da população e desafios de popularização científica no território.

Paraná tem alta confiança na ciência, mas acesso desigual a espaços científicos, mostra estudo inédito

Primeira pesquisa estadual de percepção pública de CT&I revela interesse elevado da população e desafios de popularização científica no território. / Fotos: Governo do PR

O Paraná consolidou, nas últimas décadas, um dos sistemas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) mais estruturados do país. Universidades públicas bem avaliadas, políticas estaduais consistentes e expansão recente de investimentos criaram um ecossistema científico robusto. O que ainda permanecia pouco conhecido, porém, era como a população percebe e se relaciona com essa infraestrutura de conhecimento.

Essa lacuna começa a ser preenchida pela primeira Pesquisa Estadual de Percepção Pública da Ciência, Tecnologia e Inovação, conduzida pelo NAPI Paraná Faz Ciência com apoio da Fundação Araucária e da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Com 2.684 entrevistas em todas as mesorregiões, o estudo oferece uma radiografia inédita da relação entre sociedade e ciência no território paranaense e revela um cenário ambivalente: a ciência desfruta de alta confiança social e interesse relevante da população, mas ainda enfrenta barreiras de acesso territorial e de engajamento cultural.

Para a Fundação Araucária, o levantamento vai além de um diagnóstico. “Este livro não é apenas um registro estatístico. É um instrumento estratégico para o planejamento de políticas públicas de CT&I no Paraná”, afirma o presidente da instituição, Ramiro Wahrhaftig.

Ciência com alto capital de confiança

Um dos indicadores mais expressivos do estudo é o prestígio da ciência institucionalizada no Paraná. Cientistas de universidades e institutos públicos aparecem como a fonte de maior confiança da população, superando inclusive médicos e outras categorias tradicionalmente associadas à credibilidade social.

O dado sugere um ativo simbólico importante do sistema estadual de CT&I: a legitimidade pública da produção científica. Em um contexto global marcado por disputas informacionais e desinformação, esse capital de confiança reforça o papel das instituições científicas como referência social no estado.

Estudo aponta que o Paraná  enfrenta o desafio de ampliar a cultura científica de forma territorialmente equilibrada.
Estudo aponta que o Paraná enfrenta o desafio de ampliar a cultura científica de forma territorialmente equilibrada. / Foto: Governo PR

Interesse social relevante — mas desigual

A pesquisa indica que 58,8% dos paranaenses se declaram interessados em ciência e tecnologia — percentual próximo à média nacional e comparável a outros estados brasileiros.

O interesse, porém, varia conforme fatores socioeconômicos e demográficos: jovens e grupos de maior renda apresentam maior engajamento, enquanto idosos, mulheres e populações de baixa renda demonstram níveis menores de interesse, evidenciando desigualdades na apropriação social do conhecimento científico.

A Educação aparece como o tema de maior interesse geral da população (83,4%), superando inclusive áreas tradicionalmente associadas à ciência, como saúde e tecnologia — um indicativo de que a sociedade associa conhecimento científico diretamente à formação e ao desenvolvimento humano.

Confira o estudo completo aqui

Infraestrutura científica ainda distante da população

Se o interesse existe, o acesso permanece limitado. Apenas 3,9% dos paranaenses visitaram museus ou centros de ciência no último ano — índice muito inferior às médias nacional e regional. O principal motivo não é desinteresse, mas ausência territorial: um quarto dos entrevistados afirma não haver equipamentos científicos em sua região.

O dado evidencia um dos principais desafios da política de CT&I no estado: a distribuição desigual da infraestrutura de popularização científica, concentrada em grandes centros urbanos e distante de parte significativa da população.

A pesquisa também identifica uma orientação clara de expectativa social. Quando questionados sobre prioridades de investimento em ciência, 51,3% dos paranaenses apontam a educação científica nas escolas como principal área. O resultado conecta diretamente percepção pública e política científica: a população associa o avanço da ciência à formação educacional, indicando que a cultura científica é percebida como base do desenvolvimento.

NOSSA OPlNlÃO: um sistema científico maduro — e um desafio cultural

A leitura geral do estudo sugere que o Paraná alcançou maturidade institucional em ciência e inovação, mas ainda enfrenta o desafio de ampliar a cultura científica de forma territorialmente equilibrada.

Em síntese, o estado combina três características típicas de ecossistemas científicos avançados:
– alta confiança social na ciência
– interesse relevante da população
– desigualdade de acesso ao conhecimento

A consolidação do sistema de CT&I paranaense passa, assim, por uma agenda complementar à pesquisa e inovação: a democratização do acesso à ciência e sua incorporação mais ampla no cotidiano social.

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