Smart City Expo Curitiba: “o futuro das cidades está em extrair o que está em nossas mentes”
PhD em políticas culturais, Shain Shapiro passou anos ajudando uma centena de cidades a fazer uma pergunta simples — e incômoda: e se a música fosse infraestrutura? Confira entrevista exclusiva. / Fotos: Divulgação
Existe uma pergunta que Shain Shapiro – PhD em políticas culturais e referência global no tema – gosta de fazer para prefeitos, urbanistas e gestores públicos: quantos empregos são gerados, por exemplo, num show de Lady Gaga para um milhão de pessoas em Copacabana? A resposta, claro, ninguém sabe de cabeça. E é exatamente esse o problema.
Shapiro nasceu em Londres e cresceu no Canadá. Passou décadas na interseção entre política pública, economia criativa e desenvolvimento urbano até escrever This Must Be the Place, livro que se tornou referência para quem pensa cidades além do concreto e da infraestrutura. Em 2021, ele fundou o Center for Music Ecosystems, organização que já atuou em mais de 130 cidades em 14 países — incluindo o Brasil, com projeto em São Paulo. Mas o que ele faz, afinal, não é promover shows, mas sim mudar a pergunta que as cidades fazem sobre si mesmas.
“Não pensamos em música como infraestrutura”, disse Shapiro, em entrevista a The Builders após seu painel no Smart City Expo Curitiba 2026. E essa falha de percepção, segundo ele, tem um custo econômico, social e político.
Quando Shapiro fala em empregos gerados pela música, ele se refere a cadeias inteiras de trabalho (técnicos de som, seguranças, fornecedores de comida, motoristas, designers, produtores, engenheiros acústicos, gestores de licenciamento) que não aparecem nos relatórios de desenvolvimento econômico porque ninguém as mede com seriedade.
O argumento é que, se as cidades começassem a tratar música e cultura com o mesmo rigor analítico que aplicam a transporte ou saneamento, encontrariam respostas para problemas que parecem não ter nada a ver com arte: automação, educação, criminalidade, saúde mental.
“Se pensarmos em música e cultura, podemos criar cidades mais felizes”, afirmou Shapiro. “Como protegemos empregos na era da automação? Como educamos pessoas? Como reduzimos crimes? Como ficamos mais saudáveis física e mentalmente? A resposta passa pela música.”
Cidades que responderam essas perguntas com seriedade — Barcelona, Londres, Berlim, Seattle, Vancouver, Bogotá, Medellín — construíram estratégias reais. Medellín é um caso particular: usou a música ativamente como ferramenta de segurança pública em regiões marcadas por violência. Funcionou. Por decisão política informada por dados, não por acaso.
Shapiro cita também Frutillar, cidade chilena de 7 mil habitantes que virou referência internacional em turismo cultural com base numa estratégia consistente — prova de que escala não é pré-requisito. O denominador comum entre todas essas cidades: trataram a propriedade intelectual — a música, a obra, o artista — com o mesmo rigor legal e comercial que se aplica a um imóvel ou a uma concessão pública. “O ambiente de negócios atual foca em tecnologia e construção e negligencia o potencial da propriedade intelectual”, disse Shapiro. “Isso é um erro estratégico.”

O modelo dominante de “cidade inteligente” — orientado por tecnologia, sensores, dados de tráfego, eficiência logística — tende a esquecer que cidades existem para pessoas. E pessoas têm necessidades que algoritmos não resolvem. “Apps e inteligência artificial deveriam adotar seres humanos, não o contrário”, disse Shapiro. A tecnologia, na sua visão, deveria ser um sistema de suporte à cultura: facilitar a produção, a experimentação, a disseminação e a remuneração dos criadores.
O problema com os governos
Existe uma resistência estrutural. Música carrega uma imagem de contracultura que dificulta sua entrada nas políticas públicas. Gestores que cresceram ouvindo que arte é supérflua não estão naturalmente inclinados a tratá-la como ativo estratégico.
Shapiro fala em reeducação. “A música é frequentemente vista como anti-establishment”, explicou a The Builders. “Por isso é tão difícil integrá-la às políticas governamentais. Precisamos que os governos a enxerguem como ferramenta estratégica, não apenas como entretenimento.” Mostrar, com dados e exemplos, que cidades que investem em cultura como política pública mudam sua regulação, facilitam a abertura de negócios criativos e criam novos espaços — ao mesmo tempo em que transformam algo mais difícil de colocar em planilha: o sentimento coletivo, a qualidade de vida percebida, a vontade de ficar.
O impacto tangível (novas licenças, novos espaços, novos empregos) e o intangível (o senso de pertencimento, a saúde mental, a coesão comunitária) são dois lados da mesma moeda.
