Embrapii ganha representação no Sul do Brasil para aproximar a indústria de recursos para inovação
Nova estrutura atenderá Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul em um momento de expansão da organização, que recebeu R$ 640 milhões para apoiar novos projetos de pesquisa e desenvolvimento. / Foto: Henrique Almeida, Agecom UFSC
A Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), organização que conecta empresas a centros tecnológicos e compartilha os custos e os riscos de projetos de inovação, abriu uma nova frente de atuação no Sul do país. A instituição passa a contar, a partir deste ano, com uma representação dedicada ao Paraná, a Santa Catarina e ao Rio Grande do Sul, criada para aproximar a indústria regional de recursos não reembolsáveis, infraestrutura tecnológica e equipes especializadas em pesquisa e desenvolvimento.
A chegada ocorre em um momento de expansão da Embrapii. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciaram no final de junho um aporte de R$ 640 milhões adicionais à organização para apoiar a contratação de novos projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Em entrevista exclusiva à rede The Builders, Claudio Francisco Schefer, responsável pela representação regional, afirmou que um dos principais desafios será tornar o modelo mais conhecido entre as empresas do Sul e ampliar a conexão entre demandas industriais e competências científicas já disponíveis. A representação regional terá a função de identificar desafios tecnológicos das empresas, localizar as competências mais adequadas dentro da rede e apoiar a estruturação de projetos de inovação.
Engenheiro químico e economista, mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Schefer acumula mais de 20 anos de experiência no setor privado. Na Embrapii, integra a Gerência de Relações com o Mercado e atua na liderança de programas prioritários.
A região já possui uma presença relevante dentro da rede: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram 17 unidades credenciadas, sendo sete no território gaúcho, seis em Santa Catarina e quatro no Paraná. Essas instituições atuam em áreas como polímeros, grafeno, nanomateriais, eletroquímica, engenharia de estruturas, refrigeração, acústica, eletrônica embarcada, automação, robótica, sistemas inteligentes, sensoriamento, inteligência artificial, manufatura avançada, energia, biocombustíveis, medicamentos e biofármacos.
Sul soma R$ 1,31 bilhão em projetos
As empresas dos três estados já contrataram 837 projetos por meio da Embrapii, o equivalente a 19,5% da carteira nacional. Ao todo, 597 companhias estão envolvidas em iniciativas que somam R$ 1,31 bilhão em investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A carteira acompanha a diversidade da economia regional, formada por cadeias industriais ligadas aos setores metalmecânico, de máquinas e equipamentos, agroindústria, alimentos, têxtil, químico, calçadista, papel e celulose, energia, mobilidade e tecnologia da informação.
“Temos uma matriz econômica e industrial bastante diversa, que combina com as capacidades disponibilizadas pelas unidades. Os projetos vão da concepção de materiais e novos produtos à digitalização de processos, sistemas inteligentes, inteligência artificial, medicamentos e biofármacos”, diz Schefer.
Parte das empresas utiliza a rede não apenas em projetos isolados, mas como complemento à própria capacidade de pesquisa, desenvolvimento e engenharia.

Contratação sem abertura de edital
Uma das particularidades do modelo é a contratação em fluxo contínuo. A empresa não precisa aguardar a abertura de editais ou períodos específicos para apresentar um projeto. O processo pode começar a partir de um problema produtivo, de uma oportunidade de negócio, da melhoria de um processo ou da intenção de desenvolver um produto, um sistema ou uma nova aplicação tecnológica. A partir dessa demanda, a empresa é conectada a uma unidade credenciada com conhecimento na área. O escopo, as entregas, os prazos, os custos e a divisão dos investimentos são definidos em conjunto.
“A indústria não precisa chegar com todas as respostas prontas. Muitas vezes, o desafio está justamente em transformar uma oportunidade ainda pouco estruturada em um projeto capaz de gerar uma nova solução, melhorar um processo ou reduzir custos”, afirma Schefer. Depois da contratação, a unidade assume a gestão técnica, o desenvolvimento e a prestação de contas. A empresa realiza parte do investimento, enquanto a Embrapii aporta recursos financeiros não reembolsáveis e a instituição credenciada contribui com recursos econômicos, como pesquisadores, laboratórios e equipamentos.
Embora o Sul possua 17 unidades próprias, as empresas da região podem desenvolver projetos com qualquer uma das 99 instituições que integram a rede nacional. “Independentemente de onde esteja a competência necessária, a conexão pode ser realizada”, diz o representante.
Startups e parques tecnológicos entram na estratégia
A atuação regional também deverá envolver parques tecnológicos, incubadoras, startups e empresas de base tecnológica inseridas nos ecossistemas locais de inovação. A intenção é integrar esses atores aos projetos industriais, seja no desenvolvimento de partes de uma solução, seja na aplicação e na operacionalização das tecnologias criadas.
“Existe um ambiente empreendedor pulsante na região. Em muitos casos, a necessidade da indústria pode ser atendida com a participação de parques tecnológicos e startups incubadas que possuem competência para desenvolver ou operacionalizar uma solução”, afirma Schefer.
Pequenas empresas e startups podem acessar condições adicionais por meio da parceria entre Embrapii e Sebrae. Dependendo do enquadramento do projeto, a parcela a ser investida pela empresa pode receber subsídio de até 70%.

Além do acesso a recursos
Embora o financiamento não reembolsável seja um dos principais atrativos do modelo, Schefer afirma que o valor para a indústria também está no acesso a equipes que já acumulam conhecimento técnico em áreas específicas. Em vez de formar uma estrutura do zero para cada projeto, a empresa pode trabalhar com pesquisadores, engenheiros e laboratórios que atuam continuamente no desenvolvimento de determinadas tecnologias.
“O recurso financeiro é muito importante, mas a disponibilidade de profissionais especializados e a forma como o projeto é definido e negociado também são contribuições centrais. Esse acúmulo de experiência reduz o tempo de desenvolvimento e os riscos de execução”, afirma.
A expectativa da nova representação é converter a base industrial do Sul e a diversidade de competências tecnológicas instaladas na região em uma carteira maior de projetos, especialmente entre empresas que ainda desconhecem os instrumentos disponíveis ou mantêm seus desafios de inovação restritos às equipes internas.

