Com modelo que inspira outras cidades brasileiras, o Sandbox.Rio consolida a cidade como laboratório urbano e referência em inovação pública.

O Rio está testando o futuro – e começando a exportar esse modelo

Com regulação baseada em dados, reconhecimento internacional e um modelo que já inspira outras cidades brasileiras, o Sandbox.Rio consolida a cidade como laboratório urbano e referência em inovação pública. / Foto: Marco Antonio Lima


O Rio de Janeiro começa a se transformar em um laboratório de inovação com o avanço do terceiro ciclo do Sandbox.Rio, iniciativa da Prefeitura do Rio para acelerar o teste de novas tecnologias no ambiente urbano – e assim começa a consolidar um modelo de política pública que inspira outras cidades no Brasil.

O sandbox regulatório representa uma mudança estrutural na forma como o poder público se relaciona com a inovação: em vez de esperar a regulamentação para agir, o município cria condições reais para testar soluções em um ambiente controlado, com acompanhamento institucional e impacto direto na vida da população. 

É o que se pode chamar de inovação tecnológica territorial, quando a cidade deixa de ser apenas usuária de tecnologia e passa a ser campo ativo de experimentação, validação e aprendizado.

O conceito de sandbox regulatório nasce justamente da tensão entre inovação e regulação. Historicamente, novas tecnologias enfrentam barreiras institucionais porque não se encaixam nas regras existentes. O sandbox inverte essa lógica: cria um ambiente onde essas soluções podem operar temporariamente, com regras adaptadas, supervisão e métricas claras. Na prática, isso permite reduzir o tempo de maturação de novas tecnologias, diminuir barreiras de entrada para inovação, testar políticas públicas antes de sua implementação definitiva e gerar dados reais para tomada de decisão. Se antes esse modelo estava restrito ao setor financeiro, com iniciativas do Banco Central, CVM e Susep, o Rio se tornou a primeira capital brasileira a institucionalizar esse modelo no território urbano.

No dia 2 de abril, no Maravalley, a cidade apresentou oficialmente os projetos selecionados para a edição 3.0 do programa, em um encontro que reuniu representantes do poder público, do ecossistema de inovação e das startups participantes. Foram selecionadas 10 iniciativas, distribuídas entre frentes como saúde, segurança pública, sustentabilidade e logística urbana. O evento serviu para o anúncio de novos projetos e também compartilhou a maturidade do programa como plataforma contínua de inovação aplicada.

“Com o Sandbox.Rio, a cidade está testando o futuro, agora, em tempo real. Selecionamos as startups do Sandbox Rio 3.0: a terceira edição do programa para criar o ambiente que transforma a cidade em laboratório vivo para inovação, onde novas tecnologias podem ser testadas com segurança, agilidade e impacto real na vida das pessoas”, compartilhou o prefeito Eduardo Cavaliere.

Um dos dados mais relevantes do terceiro ciclo está na distribuição geográfica dos projetos, em que 83% das iniciativas estão concentradas em regiões como Zona Norte, Zona Oeste e Jacarepaguá, possibilitando que a inovação deixe de acontecer apenas nos centros tradicionais e passando a operar onde o impacto é mais necessário. Os exemplos ajudam a materializar esse movimento, mas não são o ponto central, conectando essas iniciativas através de um método: testar no território, com dados reais, antes de escalar como política pública.

Alguns dos 10 projetos aprovados neste terceiro ciclo, a partir de 58 inscritos, são:

  • Drones de resgate com visão computacional para salvamento em praias.
  • Sistemas de segurança preventiva com QR Code para localização de crianças.
  • Soluções de combate à dengue com inteligência artificial em áreas de difícil acesso.
  • Logística inteligente para transporte de vacinas com rastreabilidade em tempo real.
  • Sensores urbanos para monitoramento de ar, ruído e qualidade da água.
  • Infraestrutura de mobilidade elétrica integrada e alimentada por energia solar.

Aprendizado aplicado: o caso dos patinetes

Entre os projetos anteriores, destaca-se o dos patinetes elétricos, que passou por um ciclo completo dentro do sandbox: teste, coleta de dados e, posteriormente, regulamentação oficial por decreto municipal. Os números ajudam a dimensionar o impacto:

– 2,9 milhões de viagens realizadas
– 972.380 usuários cadastrados
– Redução de 358 toneladas de CO₂
– Geração de 230 empregos

Os dados, coletados ao longo de 19 meses de operação, foram fundamentais para embasar a decisão pública, transformando a experimentação em política estruturada. Esse é o ponto-chave do modelo: o sandbox não substitui a regulação, ele qualifica a regulação.

A construção desse modelo passa diretamente por uma articulação entre diferentes lideranças públicas. O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Osmar Lima, tem sido uma das vozes centrais na defesa do sandbox como instrumento de desenvolvimento urbano e defende que essa iniciativa representa uma mudança estrutural na forma como o poder público se relaciona com a inovação: “A cidade precisa criar condições reais para testar soluções. Não dá mais para esperar modelos prontos. O sandbox permite experimentar com responsabilidade e aprender com dados.”

Foram selecionadas 10 iniciativas, distribuídas entre frentes como saúde, segurança pública, sustentabilidade e logística urbana. Foto: Marco Antonio Lima

Já na frente de infraestrutura e tecnologia, o presidente da IplanRio, João Carabetta, reforça o papel estratégico dessas iniciativas no fortalecimento da autonomia tecnológica da cidade: “Queremos que o Rio seja reconhecido como um polo de inovação pública, capaz de desenvolver suas próprias soluções em inteligência artificial, sem depender de plataformas estrangeiras. Esses modelos são infraestrutura aberta para quem cria soluções digitais.” Sua fala conecta o Sandbox.Rio a uma agenda mais ampla ao não apenas testar soluções, mas construir capacidade tecnológica própria.

Essa lógica se expande com iniciativas como o Rio 3 Open, que propõe uma infraestrutura pública de inteligência artificial. Diferente dos modelos proprietários, a proposta adota uma lógica aberta, permitindo que empresas, pesquisadores e desenvolvedores utilizem, modifiquem e criem soluções a partir dessa base, gerando a democratização do acesso à tecnologia, possibilidade de processamento de dados local (sem dependência externa), o fortalecimento da soberania digital e a criação de um ecossistema de inovação mais autônomo.

O sandbox, nesse contexto, deixa de ser apenas um programa isolado e passa a integrar uma estratégia maior de cidade, o que tem gerado reconhecimento nacional e internacional. O Sandbox.Rio foi 2º lugar no World Smart City Awards 2024 e 1º lugar no GovTech Summit 2025. Além disso entrou no Mapeamento de Iniciativas Climáticas Urbanas da ONU Habitat, foi destaque no Observatório de Inovação da OCDE e foi citado em um estudo do TCU sobre sandboxes regulatórios. Esse reconhecimento posiciona o Rio como um dos principais cases de inovação urbana aplicada do país. 

A base institucional desse avanço está no Decreto Municipal nº 50.697/2022, que regulamenta o sandbox no Rio de Janeiro. O decreto estabelece os critérios de elegibilidade, a matriz da gestão de risco, o monitoramento contínuo, a comunicação institucional e os planos de descontinuidade, estruturando assim um modelo de governança.

E esse modelo já começa a se expandir, segundo matéria da Exame, cidades como Goiânia (GO), Criciúma (SC) e Maceió (AL) passaram a adotar estruturas inspiradas diretamente no decreto carioca, replicando sua lógica de funcionamento.

Esse movimento revela uma mudança importante no papel do Rio, em que mesmo em um cenário onde a densidade de startups ainda pode ser menor do que em outros polos do país, a cidade começa a se destacar pela sua capacidade de estruturar inovação a partir do poder público. 

O que está sendo construído é uma referência de governança, uma vitrine institucional e, cada vez mais, um modelo replicável, que não só testa tecnologia, mas se propõe a testar o futuro da cidade

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