Diretor da Fundação Araucária, Luiz Mário Spinosa explica como o Estado está estruturando redes de pesquisa, deeptechs e novos instrumentos para aproximar universidades, empresas e inovação aplicada.

Entrevista: a estratégia para transformar ciência em desenvolvimento econômico no Paraná

Diretor da Fundação Araucária, Luiz Mário Spinosa explica como o Estado está estruturando redes de pesquisa, deeptechs e novos instrumentos para aproximar universidades, empresas e inovação aplicada. / Foto: Divulgação

Existe uma pergunta que atravessa há décadas o sistema de ciência e tecnologia brasileiro: por que o país produz pesquisa de qualidade, mas tem dificuldade de transformar esse conhecimento em inovação, empresas e desenvolvimento econômico?

O Paraná tenta responder essa pergunta de forma prática: organizando a ciência como parte de uma estratégia de desenvolvimento.

Nos últimos anos, o Estado passou a estruturar uma política de ciência, tecnologia e inovação baseada em redes de pesquisa conectadas ao setor produtivo, programas de apoio a startups de base científica e ampliação da infraestrutura científica. A lógica é menos acadêmica e mais econômica: transformar conhecimento em novas cadeias produtivas, empresas e competitividade.

“Ciência não pode ser tratada como gasto. Ciência é investimento — e investimento de longo prazo”, afirma Luiz Mário Spinosa, diretor da Fundação Araucária, entidade responsável pelo fomento à pesquisa no Estado.

O tema ganhou visibilidade durante a Semana Araucária de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em Curitiba, que terminou com o anúncio de mais de R$ 40 milhões em novos investimentos para pesquisa, inovação, formação científica e programas de propriedade intelectual. Mais importante do que o volume de recursos, porém, é o modelo que o Estado vem tentando construir.

O eixo dessa estratégia são os NAPIs (Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação), redes que funcionam como consórcios científicos conectando universidades, institutos de pesquisa, empresas e governo em torno de desafios estratégicos, como agronegócio, alimentos, saúde, energia e desenvolvimento territorial. A ideia é organizar a pesquisa a partir de problemas reais da economia e da sociedade, aumentando a chance de que o conhecimento gerado nas universidades se transforme em inovação aplicada.

É sobre essa estratégia, seus resultados e desafios que Spinosa fala nesta entrevista exclusiva:

THE BUILDERS PARANÁ – O Brasil costuma produzir ciência de qualidade, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar pesquisa em inovação e empresas. O que o Paraná está fazendo de diferente para reduzir essa distância entre universidade e mercado?

Luiz Mário Spinosa – O Brasil já produz ciência de qualidade. Cerca de 50% das pesquisas nacionais recebem algum tipo de apoio das fundações estaduais de amparo à pesquisa. No Paraná, procuramos ir além do financiamento tradicional e promover um modelo mais cooperativo e integrado entre as instituições.

A principal estratégia que adotamos foram os NAPIs — Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação. Eles funcionam como arranjos colaborativos de pesquisa, algo semelhante a clusters ou consórcios científicos, que conectam universidades, institutos de pesquisa, empresas e governo em torno de desafios estratégicos.

Sempre que estruturamos esses arranjos, o objetivo é mobilizar o capital institucional existente no Estado e formar redes de cooperação. Essa dinâmica permite usar melhor os recursos disponíveis e acelerar a produção de conhecimento. A estratégia hoje não é competir entre instituições, mas colaborar.

“Procuramos ir além do financiamento tradicional e promover um modelo mais cooperativo e integrado entre as instituições”, comenta o diretor da Fundação Araucária. / Foto: Divulgação

THE BUILDERS PARANÁ – Pode dar exemplos de como esses arranjos funcionam na prática?

Luiz Mário Spinosa – Um exemplo é o NAPI Alimentos e Território, que atua no Oeste e no litoral do Estado. Ele busca identificar as cadeias alimentares do território e trabalhar junto a pesquisadores, produtores, pescadores e comunidades indígenas. Muitas soluções que surgem dessas pesquisas podem ser escaladas, como certificações de origem, agregação de valor a produtos locais e geração de riqueza regional.

Outro exemplo é o NAPI Agro, que estuda a qualidade e a conservação do solo. O solo é uma das principais riquezas do Paraná, mas também sofre impactos das mudanças climáticas. Esse NAPI analisa como ocorre a degradação do solo em diferentes regiões do Estado e desenvolve práticas de preservação e manejo sustentável.

THE BUILDERS PARANÁ – Nos últimos anos, vários estados brasileiros passaram a disputar protagonismo em ciência, tecnologia e inovação. Onde o Paraná já é competitivo hoje?

Luiz Mário Spinosa – O Paraná já tem alguns indicadores que mostram uma evolução importante. Somos hoje o quarto maior PIB do Brasil e temos uma economia bastante diversificada, o que cria uma base sólida para o desenvolvimento científico e tecnológico.

Algumas áreas já são bastante competitivas, como o agronegócio, que combina forte produção econômica com uma base científica relevante envolvendo universidades, a Embrapa e centros de pesquisa. Outra frente importante está ligada às deeptechs e às startups de base científica.

O Paraná possui hoje uma rede ampla de ambientes promotores de inovação, com mais de 200 ambientes de inovação e cerca de 22 parques tecnológicos. Mais de 90% das startups surgem dentro ou a partir das universidades, o que mostra a importância da pesquisa científica para o empreendedorismo tecnológico.

THE BUILDERS PARANÁ – O que ainda falta para transformar mais conhecimento produzido nas universidades em inovação, empresas e desenvolvimento econômico?

Luiz Mário Spinosa – O principal desafio é garantir continuidade e consolidação dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Não se trata apenas de aumentar recursos em determinado momento, mas de construir políticas de longo prazo.

Também precisamos avançar na popularização da ciência, aproximando mais a sociedade do sistema de ciência, tecnologia e inovação. O sistema precisa funcionar como um conjunto integrado, desde a formação de pesquisadores até os níveis mais avançados de inovação e transferência tecnológica.

Outro ponto central é a conexão entre ciência e empreendedorismo. O Paraná tem investido fortemente em startups de base tecnológica. Apenas em programas de fomento direto, já foram destinados cerca de R$ 380 milhões para startups. O Tecnova 3, por exemplo, terá cerca de R$ 55 milhões em 2026, e a última edição recebeu mais de 500 empresas inscritas.

O mais importante é que essa estratégia foi construída como política de Estado, não apenas de governo. Nosso esforço agora é consolidar e manter essa política no longo prazo, garantindo instrumentos, programas e recursos que sustentem o desenvolvimento do sistema de ciência, tecnologia e inovação do Paraná.

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