Do Rio de Janeiro a Curitiba, distritos de inovação e hubs urbanos passam a ser usados como instrumentos de desenvolvimento econômico e atração de empresas.

Smart hubs e a nova geografia da inovação nas cidades

Do Rio de Janeiro a Curitiba, distritos de inovação e hubs urbanos passam a ser usados como instrumentos de desenvolvimento econômico e atração de empresas. / Foto: Divulgação

Durante muito tempo, a inovação foi tratada como algo que acontecia dentro de empresas ou universidades. Hoje, cada vez mais, ela passa a ser tratada como uma estratégia urbana.

Esse foi o tema do painel “Smart hubs impulsionando a inovação tecnológica e de negócios nas cidades”, realizado durante o Smart City Expo Curitiba, que reuniu Isabel Sabadi (diretora do 22@ Network Barcelona), Willington Feitosa (Prefeitura do Rio de Janeiro), Rodrigo Santiago (RP – Porto Maravalley) e Nicolás Ramírez Torres (coordenador do Vale do Pinhão, Curitiba), com mediação de Jean Vogel, CEO da Ecosystems.

A discussão partiu da constatação que a inovação não acontece de forma isolada, mas tende a se concentrar em territórios específicos das cidades, onde universidades, centros de pesquisa, startups, empresas, investidores e governo passam a conviver no mesmo espaço urbano. 

Barcelona é um dos exemplos mais emblemáticos desse modelo. O distrito 22@, criado em uma antiga área industrial da cidade, transformou um território degradado em um dos principais polos de inovação da Europa. A chave dessa transformação, segundo Isabel Sabadi, CEO do 22@ Network Barcelona, foi a criação de hubs urbanos estruturados ao redor de universidades, centros tecnológicos, startups e empresas consolidadas (leia mais nessa entrevista exclusiva a The Builders).

Foi uma transformação econômica: o distrito passou a atrair empresas nacionais e internacionais, gerar empregos qualificados e formar um ecossistema de inovação conectado ao tecido urbano. A próxima fase do projeto, segundo Sabadi, envolve a instalação de novos departamentos de inovação e centros tecnológicos — como hubs industriais e de microeletrônica — reforçando o papel do distrito como polo de desenvolvimento tecnológico. O resultado é que o 22@ se tornou um novo bairro da cidade baseado na economia do conhecimento. 

Curitiba: reutilizar a cidade para criar novos ciclos econômicos

A capital paranaense começou a estruturar seu ecossistema de inovação de forma mais organizada a partir de 2018, com a criação do Vale do Pinhão. Mais recentemente, essa estratégia ganhou um novo elemento físico: o Pinhão Hub, instalado em um antigo complexo industrial onde funcionava o Moinho Paranaense, inaugurado em 1938, no bairro do Rebouças.

O espaço, com cerca de 1.600 metros quadrados, foi transformado em um hub de inovação com capacidade para abrigar empresas, programas de aceleração, eventos e iniciativas de desenvolvimento tecnológico. A lógica é reaproveitar estruturas existentes da cidade e transformá-las em espaços de economia do conhecimento — uma estratégia que permite acelerar a criação de ambientes de inovação sem depender apenas de novos projetos imobiliários.

Antigo moinho deu lugar ao Pinhão Hub, no bairro industrial do Rebouças, em Curitiba. / Foto: PMC.
Antigo moinho deu lugar ao Pinhão Hub, no bairro industrial do Rebouças, em Curitiba. / Foto: PMC.

Segundo Nicolás Ramírez Torres, o objetivo do hub é aumentar a geração de negócios e fortalecer o ecossistema local, conectando empresas, universidades e empreendedores. Uma das frentes atuais envolve jornadas e programas voltados à inteligência artificial, inserindo empresas locais na nova onda tecnológica.

Mas o Pinhão Hub é apenas uma peça de uma estratégia maior. Curitiba estruturou, ao longo dos últimos anos, uma governança formal para o ecossistema de inovação, envolvendo entidades empresariais, universidades, sociedade civil e poder público. Essa estrutura permite que a política de inovação da cidade tenha continuidade e não dependa apenas de uma gestão específica.

“O Vale do Pinhão foi estruturado com participação de várias instituições da cidade. A ideia é que a estratégia de inovação seja uma estratégia da cidade, não de um governo”, resume Nicolás.

Rio de Janeiro: inovação como estratégia de reposicionamento econômico

No Rio de Janeiro, a criação de hubs e distritos de inovação aparece conectada a uma estratégia mais ampla de reposicionamento econômico da cidade, especialmente após os ciclos de investimento em infraestrutura urbana ligados aos Jogos Olímpicos.

Segundo Willington Feitosa, a cidade estabeleceu metas de longo prazo, como posicionar o Rio entre os principais polos globais de inteligência artificial até 2032. A estimativa apresentada é de R$ 65 bilhões em investimentos e a geração de 10 mil empregos qualificados ligados à economia tecnológica. Um dos fatores competitivos da cidade, segundo ele, é a matriz energética, com cerca de 83% da energia proveniente de fontes renováveis, um ativo relevante para empresas de tecnologia e data centers.

Os dados apresentados durante o evento mostram que o Rio manteve, ao longo da última década, posição de destaque nos rankings nacionais de inovação e empreendedorismo. No ranking Connected Smart Cities 2025, por exemplo, a cidade aparece entre as principais do país em indicadores como força de trabalho em tecnologia, número de startups, economia criativa, gestão de dados e abertura de empresas.

Porto Maravalley: universidades, empresas e programas de empreendedorismo em uma área revitalizada para os Jogos Olímpicos. / Foto: Alexandre Macieira

Um dos projetos mais recentes dessa estratégia é o Porto Maravalley, distrito de inovação em desenvolvimento na região portuária, uma área que passou por um processo de requalificação urbana após a demolição da Perimetral, em 2013, e a reconfiguração da região do Pier Mauá. O projeto envolve investimento público, presença de universidades, empresas e programas de empreendedorismo em uma área de cerca de 10 mil metros quadrados.

Como detalha Rodrigo Barbosa, o desenvolvimento do distrito envolve também construção de comunidade, programas de embaixadores, eventos, produção de conteúdo e iniciativas de letramento tecnológico. A estratégia inclui, por exemplo, encontros sobre inteligência artificial com a imprensa e lideranças locais.

“A gente não vai construir um ecossistema sozinho. Isso precisa ser feito com empresas, universidades, imprensa e comunidade. Ecossistema é construção coletiva”, afirmou.

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