A ambição tecnológica do agro no Oeste do Paraná
Ao longo do Show Rural, em Cascavel, manifesto, debates de ecossistemas e anúncios de investimentos públicos em novos projetos alinham produção, tecnologia e governança. / Foto: Divulgação (Show Rural)
Primeiro grande evento do calendário do agronegócio brasileiro, o Show Rural — promovido pela Coopavel e encerrado nesta sexta-feira (13), em Cascavel (PR) — deixou claro que o debate sobre o futuro do setor no Oeste do Paraná já não se limita à escala produtiva. A edição deste ano evidenciou uma inflexão estratégica: tecnologia, dados e governança passam a ocupar o centro da agenda regional, tanto na formulação de políticas públicas quanto na organização do setor produtivo.
Historicamente associado à difusão de máquinas, cultivares e soluções técnicas para o campo, o evento assumiu nesta edição um papel mais estrutural. Funcionou como espaço de alinhamento entre lideranças empresariais, cooperativas, universidades, startups, agentes públicos e instituições de fomento — atores que, juntos, começam a desenhar uma estratégia territorial de longo prazo para o agro do Oeste.
Esse movimento se expressou em três frentes: a formalização de uma ambição regional explícita; o fortalecimento dos ecossistemas de inovação ligados ao agro; e a consolidação de projetos estruturantes com investimento público, base científica e conexão direta com o setor produtivo.
Na quarta-feira, durante o Iguassu Valley Show, foi lançado o Manifesto da Ambição Regional do Oeste, liderado pelo Programa Oeste em Desenvolvimento (POD). O documento consolida um processo de articulação iniciado há alguns anos e estabelece como meta posicionar a região como referência global em tecnologias e inovações aplicadas à cadeia da proteína animal — segmento no qual o Oeste já é protagonista produtivo. Antes da assinatura, um painel sobre o tema reunindo Vitor Donaduzzi (Iguassu Valley), Clédio Roberto Marschall (POD) e Augusto Stein (Sebrae/PR) fortaleceu o discuso envolvendo inovação, articulação estratégica e competitividade empresarial.
O “Manifesto da Ambição Regional” busca orientar, de forma técnica e gradual, os próximos passos do desenvolvimento econômico regional, reunindo representantes do setor produtivo, lideranças empresariais e atores do ecossistema de inovação.

Investimentos públicos em novas tecnologias
No campo da política pública, o Governo do Paraná anunciou o lançamento da Plataforma Paraná + Sustentável, iniciativa que consolida dados ambientais, territoriais e agropecuários em um único ambiente digital. A ferramenta, que será disponibilizada gratuitamente para iOS e Android, permitirá que produtores acessem, pelo celular, um extrato agroambiental da propriedade, reunindo informações como Cadastro Ambiental Rural (CAR), licenciamento, cadastros sanitários e registros exigidos para certificações, exportações e acesso a crédito.
A plataforma também integrará imagens de satélite, monitoramento do uso do solo e acompanhamento de eventos climáticos extremos, estruturando uma base auditável de inteligência territorial. A proposta é enfrentar um desafio recorrente no setor: a fragmentação de dados ambientais e produtivos, que dificulta licenciamento, regularização fundiária e comprovação de sustentabilidade.
Ao centralizar essas informações em uma infraestrutura digital permanente, o Estado transforma governança ambiental em ativo competitivo — especialmente relevante em mercados internacionais que exigem rastreabilidade e transparência.
Outro anúncio relevante foi o investimento de R$ 2,1 milhões no projeto CIA-Agro – Módulo Paraná, voltado à implantação de sistemas piloto de agricultura de precisão em cerca de 20 propriedades nas regiões Norte e Oeste.
O projeto prevê monitoramento de máquinas via telemetria, instalação de sensores e organização estratégica de dados agrícolas por meio de plataformas digitais. A iniciativa é coordenada pelo Centro de Inteligência Artificial no Agro (CIA-Agro/UEL), com articulação da Fundação Araucária, e integra uma rede nacional dedicada à análise estruturada de dados do setor. Estão previstas vitrines tecnológicas e ações de capacitação para produtores, técnicos e pesquisadores, reforçando a conexão entre ciência aplicada e operação em campo.
Encontro dos ecossistemas
O evento marcou também o encontro entre os Ecossistemas Agro, que reuniu representantes de diferentes regiões do País para a troca de experiências e metodologias de governança. “Estamos fazendo um intercâmbio entre diferentes regiões, como Norte Pioneiro, Toledo, Cascavel, Sorriso e Rondonópolis. A ideia é realizar um benchmark, para que cada governança possa apresentar sua metodologia, seus objetivos e a forma como atua”, explicou José Rodrigues da Costa Neto, diretor do Show Rural Digital.
Segundo ele, o foco é levar inovação ao campo e aproximar o produtor rural das novas tecnologias. “Nosso objetivo é fomentar soluções para que o agro produza mais, reduza desperdícios e, consequentemente, aumente a lucratividade”, resume.
NOSSA ANÁLlSE
Se, historicamente, a competitividade do Oeste do Paraná foi construída sobre escala produtiva e organização cooperativista, o que se consolida agora é uma camada adicional: dados como infraestrutura, governança como método e inovação como estratégia territorial.
A ambição, antes implícita, começa a ganhar forma institucional, projetos concretos e instrumentos digitais. E, ao fazer isso, o Oeste do Paraná sinaliza que pretende competir não apenas pela quantidade que produz, mas pela inteligência com que organiza seu território.
