IA já está mudando o trabalho e o impacto real ainda está começando
De aplicações reais em educação e no judiciário à discussão sobre produtividade, custo e privacidade de dados, especialista em IA aponta como a inteligência artificial já está reorganizando o trabalho e os modelos de negócio. / Foto: Divulgação
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa, hoje ela já opera como uma tecnologia de propósito geral, no mesmo nível de outras grandes viradas históricas, como a eletricidade ou a internet, com impacto direto na forma como empresas produzem, tomam decisões e organizam suas operações. Esse movimento já tem uma dimensão econômica: estimativas apontam que a IA pode adicionar trilhões de dólares à economia global nos próximos anos, considerando os casos de uso já conhecidos e possíveis de implementação em escala.
Mas, mais do que o volume financeiro, o que começa a se consolidar é a forma como essa tecnologia está sendo aplicada e por quem. Esse foi um dos pontos centrais discutidos em um roundtable recente sobre inteligência artificial realizado pela DHARMA-AI no Maravalley, hub de tecnologia e inovação do Rio de Janeiro, em um encontro voltado ao letramento de jornalistas sobre o tema.
Na ocasião, Gabriel Renault, CEO do AI Lab, chamou atenção para um ponto que ainda passa despercebido no debate público: “A gente não está falando de uma tecnologia isolada. A gente está falando de uma tecnologia de propósito geral, que atravessa tudo.” Na prática, isso significa que a IA não é uma solução em si, ela precisa estar sempre associada a um problema.
Apesar da popularização recente da IA generativa, a maior parte das aplicações já em produção contínua é baseada em modelos mais tradicionais de machine learning. O que muda agora é a capacidade de lidar com dados não estruturados, como texto, imagem e áudio, ampliando assim o alcance da tecnologia.
Para a Dharma-AI, os exemplos já são concretos. Na educação, eles treinam modelos capazes de corrigir redações, atribuir notas e justificar avaliações, reduzindo o tempo operacional de professores. No ambiente jurídico, já são realizadas análises automatizadas de documentos e identificação de precedentes, acelerando processos complexos. Para as empresas, essas soluções auxiliam na automação de tarefas repetitivas, com impacto direto na produtividade.
Segundo Gabriel, esse avanço tem um efeito imediato: “O impacto não é só tecnológico, ele é econômico. Existe muito dinheiro na mesa sendo destravado com esses casos de uso.”
Uma nova postura para os profissionais
Um dos pontos mais relevantes discutidos, e ainda pouco compreendido, é o deslocamento de valor dentro das profissões. Em vez de eliminar funções como todos estavam temendo, a IA começa a alterar o que, dentro delas, de fato importa. Estudos iniciais indicam que, até o momento, o impacto mais visível não foi a substituição em massa de empregos, mas a criação de novas posições ligadas à implementação e operação dessas tecnologias.
Ao mesmo tempo, algumas mudanças já são perceptíveis, como redução da necessidade de tarefas operacionais, um aumento da exigência de leitura crítica e tomada de decisão e a reorganização do papel de funções técnicas. Estimativas do próprio setor indicam que uma parcela significativa do código produzido no mundo já começa a ser gerada por uma IA, uma tendência que deve se intensificar nos próximos anos.
Esse cenário exige então uma mudança de postura, porque funções tradicionalmente técnicas passam a demandar uma camada mais estratégica. “O engenheiro precisa cada vez mais pensar como um arquiteto de problemas, não só como executor”, apontou Renault durante o encontro. Ou seja: não basta saber fazer, é preciso saber o que vale a pena ser feito e por quê.
Esse deslocamento aparece também em outra fala do especialista, feita em uma entrevista recente ao podcast Lab de Tendências da Casa Firjan: “A gente não está na supremacia da técnica. A gente está na supremacia da criatividade, do dado proprietário, do que é único, seu.” Essa afirmação ajuda a entender por que áreas ligadas à criatividade, repertório e leitura de contexto ganham relevância neste novo cenário. Afinal, se a execução se torna cada vez mais acessível, o diferencial passa a estar naquilo que não pode ser replicado facilmente como o seu repertório, sua capacidade de interpretação, sua leitura de contexto e a implementação da sua visão sobre desafios e problemas.
Outro ponto discutido no roundtable foi a própria arquitetura da IA, em que os grandes modelos generalistas, com bilhões ou trilhões de parâmetros, foram responsáveis pela popularização da tecnologia. Mas começam a enfrentar limitações importantes como um alto custo computacional, um consumo energético elevado, uma dificuldade de controle sobre dados e a baixa eficiência em tarefas específicas. Esse cenário abre espaço para uma nova abordagem: modelos menores e especializados.
Segundo Renault, essa é uma mudança estrutural: “O mercado tende a migrar para modelos mais eficientes e específicos. Tudo que é repetitivo e em grande volume vai ser resolvido por modelos especializados.” Na prática, a partir de avaliações de impacto dos projetos que a Dharma-AI assina, isso significa, redução de custo (em alguns casos, superior a 90%), maior velocidade de resposta, mais controle e segurança e uma melhor performance em contextos delimitados.
Para grandes empresas, especialmente bancos, seguradoras e organizações com dados sensíveis, o desafio não é apenas usar IA, mas garantir formas de controle, já que o uso de modelos públicos levanta riscos como exposição de dados confidenciais, dependência de plataformas externas e imprevisibilidade de resposta. Por isso, cresce a demanda por soluções que rodem dentro da própria infraestrutura das empresas. Nesse contexto, modelos treinados com dados proprietários passam a ser um ativo estratégico, não apenas tecnológico, mas também de negócio.
O papel do território
Outro ponto que emergiu no encontro foi o papel do território, um viés relevante aqui no The Builders, onde mesmo com operações distribuídas, algumas empresas têm optado por manter sua base no Rio de Janeiro, não apenas como uma sede formal, mas como um centro de desenvolvimento, visto que, por exemplo, empresas de tecnologia instaladas na região do Porto Maravilha tem direito a um benefício fiscal, o ISS Tech, que derruba os tradicionais 5% para 2%, como uma forma de incentivo.
Isso acontece em um momento em que a cidade começa, a partir de 2023, a estruturar seu posicionamento em tecnologia e inovação, apoiada por universidades com tradição em pesquisa, a presença de grandes empresas e novos hubs como o próprio Maravalley. Ainda assim, o uso de IA no ecossistema local segue desigual. “O Rio tem um potencial enorme, mas ainda está atrás na adoção prática da tecnologia”, apontou Renault. Ao mesmo tempo, esse cenário abre uma janela de oportunidade, afinal quem conseguir combinar tecnologia, aplicação e contexto local, tende a ocupar um espaço relevante no novo ciclo.
Está claro que a inteligência artificial não está apenas automatizando tarefas, ela está reorganizando a forma como o valor é criado e esse movimento já começou. A discussão sobre IA ainda está muito centrada no que ela pode fazer. Mas, na prática, a pergunta mais relevante agora é outra: o que as empresas, e as pessoas, conseguem construir com ela?
